Momento da crise econômica brasileira: janela de conforto para realizar o planejamento estratégico

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O longo prazo demora, mas chega! O importante é planejarmos e mantermos foco naquilo que precisa ser feito, buscando seguir diretrizes traçadas, buscando monitorar resultados, equalizar investimentos e produtividade e, sobretudo, mantendo vivo um pensamento estratégico contínuo. Temos uma janela, para não dizer uma folga, de pelo menos dois anos para isso. Mas é, de verdade, apenas uma janela!

Há exatos quinze meses tive oportunidade de assistir uma palestra do Henrique Meirelles onde o foco era retratar o fechamento de 2016. De forma objetiva e direta, o Ministro elencou, entre vários pontos de atenção, um que merecia destaque para justificar a crise vigente. Começou dizendo que o país vivia a maior recessão desde que o PIB começou a ser medido, maior até que a de 1929, e que a crise atual tinha sido construída, basicamente, por uma razão: uma grande evolução das despesas publicas. Comparativamente, enfatizou: “em 1991, as despesas representavam 10% e hoje, dezembro de 2016, representam 19%”.

Antes mesmo de ter dado alguns segundos aos ouvintes presentes para que pudessem perguntar por que e como isso aconteceu, mencionou que a razão era muito simples: “a nossa constituição não só define mais de 75% das nossas despesas como, além disso, assegura que essas despesas cresçam acima do PIB”. Seguiu dizendo que os desdobramentos disso geraram insegurança nos investidores, sobretudo nas investidas previstas para médio e longo prazos, e que o índice de confiança de consumidores e empresários vinha caindo desde 2011, trazendo, na rebarba, queda do investimento, desemprego, queda de consumo e se constituindo, portanto, num ciclo vicioso.

A notícia boa da palestra foi o “teto de gastos”, já que o Ministro cumpria, na ocasião, uma sólida agenda para anunciar essa conquista do governo. E veio mesmo como uma boa notícia. O Brasil passava a ter a seguinte regra, segundo Meirelles: “o total de despesas públicas não mais podia superar a inflação do ano anterior e o piso para saúde e educação iriam subir de acordo com a inflação. A PEC do teto dos gastos teria vigência de 10 anos e depois, com alguma revisão, mais 10 anos”. E sublinhou: “no geral, respeitando esses ciclos de 10 anos, o país poderá assistir a queda dos 19% de despesas para 10,5% e que, isso traçado para acontecer, todo o esforço deveria ser concentrado, imediatamente, na reforma da previdência”. Como ponto final da sua fala, enfatizou que o PIB demoraria um pouco para crescer porque o nível de endividamento da população, embora contabilizasse uma queda de 47% para 42%, ainda era muito alto, o que, naturalmente, demandaria tempo para empresas e pessoas se reestruturarem. Disse também que todos estavam esperando uma baixa na taxa de juros, que já tinha iniciado sua trajetória de queda e que continuaria caindo, trazendo a perspectiva de uma retomada de crescimento sustentado por volta de 2%.

Passados quinze meses dessa perspectiva retratada pelo Ministro a visibilidade atual não nos permite um tom otimista, mas, sem dúvida, carrega um pouco mais de conforto. No cenário macro temos fundamentos que reduzem qualquer tipo de turbulência, como, por exemplo, a ausência de pressão inflacionária, juros baixos – por pelo menos uns dois anos – e contas externas mais confortáveis, mesmo com uma possível alta de juros norte americano, que é esperada por vários economistas em algum momento. O ponto agora é: o Brasil precisa de agenda para a reforma da previdência e conta com a incerteza das eleições.

O Ministro tinha razão. O comprometimento das dívidas das famílias, que chegou a 25% do seu fluxo de caixa, agora está em 18%, ou seja, o retrato é de uma menor alavancagem, o que aumenta um pouco a folga em seus respectivos fluxos. Vários economistas preveem câmbio abaixo de 3,5 para o final de 2018 e retratam que o país está bem preparado com relação aos juros atrelado em dólar, porque demonstra superávit nesse ponto, mesmo com a possiblidade dos EUA subirem a taxa. No cenário global, as economias mostram mais solidez na atividade e há quem faça – entre os economistas – previsões de crescimento do nosso PIB de 1,1%, para 2017, e entre 2,8% e 3% para 2018, sobretudo porque o crescimento é menos sensível às eleições estando baseado em consumo. Temos que ter em mente que 60% do PIB vem do consumo e que as famílias tem renda baseada na inflação. Com a inflação abaixo do previsto, o ganho real, de fato, aconteceu, e a população começou a pagar suas dívidas porque o fluxo de caixa melhorou.

O conjunto desses acontecimentos estavam retratados pelo Ministro na palestra que assisti e estamos, de fato, em processo de recuperação gradual. Embora muita gente tenha ficado assustada com o engavetamento da reforma da previdência, nossa trajetória, no curto prazo, melhorou, as contas fiscais melhoraram significativamente e ganhamos um tempo para discutir a reforma da previdência. E mesmo que estejamos a nove meses da eleição sem sequer conhecermos nossos candidatos – nem sei comentar isso, o poder de consumo assumiu uma trajetória positiva, ganhando um pouco de imunidade sobre os resultados das eleições. Talvez esses sejam, realmente, mais ou menos os dois anos de folga de que dispomos antes que uma bomba estoure com tudo, sobretudo se não reformularmos a previdência, já que representa 50% dos gastos.

Penso que o momento é muito oportuno para o planejamento de estratégias. O momento pode ser usado para a construção ou, até mesmo, uma atualização do ciclo estratégico nas empresas, trazendo imensa vantagem competitiva. Essa folga que se abre no Brasil pode ser importante para analisar o passado, o presente e atualizar desdobramentos futuros. A história nos mostra que muitas das empresas no Brasil, que se planejaram estrategicamente, talvez não estejam investindo como gostariam, nem lucrando como almejado, mas vêm crescendo ou, pelo menos, passando ilesas, com menos machucados nesses períodos mais agudos de crises. Dois fatores estão evidentes: a existência de um planejamento estratégico e a sua implementação. Planejar, ainda mais quando se abre uma janela de folga, é um fator crítico para o sucesso. Analisar o mercado, preparar cenários, evidenciar tendências de setores e segmentos, prescrever caminhos a serem adotados no curto, médio e longo prazos pode ser um grande diferencial para as empresas se orientarem de forma competitiva, permitindo potencialização de ações sinérgicas com seus objetivos.

É assim que o longo prazo, apesar da demora, chega. É assim que a janela que se abre deve ser, no meu entendimento, utilizada. São nesses momentos de folga que a crise precisa – e pode – ser vencida.

Mas, cuidado: é apenas uma janela. Use-a inteligentemente!

por Christiano Oliveira é Diretor executivo da Partner Consulting, consultoria especializada em soluções empresariais em Governança, Estratégia e Gestão, com sedes em Curitiba, São Paulo e Orlando.

 

Fonte: Diário Indústria & Comércio ( http://www.diarioinduscom.com/momento-da-crise-economica-brasileira-janela-de-conforto-para-realizar-o-planejamento-estrategico/ )

 

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